Ele entrou no quarto do sótão onde tinha passado os últimos anos, depois que a casa tinha ficado vazia. Era um cômodo simples, tinha só uma cama num canto, um guarda-roupa velho e pesado, uma escrivaninha com alguns rascunhos e uma janela que dava para o jardim, que era o lugar onde passava a maior parte do tempo, e ali ele se debruçou para olhar as estrelas.
Olhar as estrelas era o seu hobbie desde a juventude, quando começou a escrever aqueles poemas de amor inocente para a garota amada que viria a ser a mãe de seus dois filhos. Ele amava as estrelas, eram a sua inspiração. Tinha até um nome para cada uma daquelas que mais gostava, era a Joana, a Sofia, a Estela... mas sua favorita era Katherine, a maior e mais brilhante de todas, com quem ficava conversando horas e horas sem parar. Seus olhos brilhavam tanto quanto as estrelas quando estavam juntos. O tempo foi passando e o homem foi ficando ali debruçado olhando para o céu e sorrindo para aquelas piscadelas tímidas delas até que alguém bateu na porta.
- o senhor precisa de alguma coisa? – falou um vulto na fresta da porta recém aberta.
- não. Não, obrigado. Pode ir dormir. Está tudo bem.
- se precisar de alguma coisa é só chamar.
- não se preocupe, eu estou bem. Boa noite.
- boa noite, senhor. – e a porta voltou a se fechar. O homem sentou-se na cama e ficou olhando para a janela ainda por mais um tempo antes de se deitar.
- boa noite, querida. Vejo você amanhã.
Pouco tempo depois já estava dormindo e sonhando. Ele nunca teve sonhos muito interessantes, a maioria ou não fazia muito sentido ou eram monótonos demais para virar uma boa história e eram poucos que podiam ser aproveitados para suas histórias, mas essas ficavam boas, ou melhor, perfeitas. Ele já ganhou muitos prêmios com essas. Outras histórias as estrelas o contavam, essas eram boas também, mas suas obras primas com certeza vieram dos seus sonhos.
Naquela noite ele sonhou. Sonhou com sua amada, como a muito tempo não sonhava. Nele os dois ainda eram jovens e estavam em um campo deitados à sombra de uma grande árvore observando as nuvens e estavam perdidamente apaixonados, mas então começou a esfriar e o céu ficou nublado, as folhas da árvore começaram a balançar violentamente com o vento e Katherine de repente não estava mais ali. Ele olhou ao seu redor e percebeu que tudo estava escurecendo aos poucos e de repente uma voz o chamou, então ele fechou os olhos e quando os abriu novamente viu somente uma coisa: o teto. Definitivamente havia acordado. Novamente acordado olhou para a janela para contemplar sua amada.
- Sr. Adrian, chegou sua hora. – a voz ecoou pelo quarto e fez esfriar e o homem pensou estar delirando, então ele fechou e abriu os olhos de novo e o que viu foi exatamente o que esperava ver: o teto.
- Sr. Adrian – chamou novamente a voz –, chegou sua hora. – e ele olhou para o lado. O que viu foi um vulto esguio e encapuzado de pé perto do armário.
- quem é você? – perguntou o homem sentado na cama.
- como assim quem eu sou? – e estourou um trovão, mesmo o céu estando limpo e cheio de estrelas. – Eu sou o destino, sou a morte!
- mas você é homem, ser o destino tudo bem, mas a morte... É que soa muito estranho, sabe? Já pensou em usar “o morto”? Soa mais másculo.
- SILÊNCIO! Você devia estar com medo, não está?
- e por que teria? Não tenho nada a perder mesmo.
- então é assim? Posso te levar numa boa? Você não vai resistir?
- também não é assim. Não tenho nada a perder, mas ainda tenho muito a ganhar. Meu ultimo livro de contos está fazendo o maior sucesso e o dinheiro vai começar a entrar logo. Eu não quero ir agora.
- mas você devia estar se descabelando como todos os outros, eu não entendo...
- eu não vou morrer – falou enquanto se levantava para ir sentar na cadeira em frente a escrivaninha – Sente-se.
- o que... eu.. ãã... tudo bem. Como assim não vai morrer? Claro que vai. Eu vim aqui para isso.
- e do que eu vou morrer? Só para saber, afinal, é mais do que justo eu saber isso.
- bem, deixe-me ver. Pelo que consta sua ficha você vai ter um infarto fulminante daqui a vinte minutos enquanto estiver dormindo.
- mas eu não estou dormindo, consequentemente eu não posso morrer se não pegar no sono nos próximos vinte minutos, não é?
- na verdade você ainda está dormindo. Esta aqui é sua mente e eu não sou exatamente real.
- isto é mal.
- pois é.
- como assim você não é exatamente real?
- bem, como você já deve saber, eu apareço antes das pessoas morrerem, mas, de certa forma, eu sou parte da imaginação coletiva. Por exemplo, eu nunca tenho a mesma personalidade e nem a mesma aparência para todos que eu apareço.
- então quer dizer que você é assim porque eu imaginei você assim?
- mais ou menos, o capuz preto é sempre o mesmo.
- e você tem a personalidade que eu imaginar?
- isso sim. Já teve vezes que tive que suportar cada coisa que você nem imagina. Particularmente, eu prefiro visitar escritores e professores, sabe?
- espera um pouco. Antes você tinha dito que aqui era minha mente.
- isso mesmo.
- então eu posso controlar você.
- não, isso não. Eu invadi a sua mente e absorvi algumas características suas, mas eu continuo sendo eu mesmo e agindo por conta.
- Então quer dizer que você é uma parte de mim?
- sim e não. Como eu já disse, eu só absorvi uma parte e você, mas eu continuo sendo a morte. Porque tantas perguntas se o seu tempo já está acabando?
- é que eu sempre achei a morte fascinante e eu queria entender melhor como ela funciona.
- você quer realmente que eu explique para você como funciona?
- se você não se importar...
- não é muito dolorido, pelo menos ninguém reclamou na hora até hoje. Depois eu encaminho o penado para onde ele merece ir.
- posso te fazer uma pergunta?
- você já fez tantas...
- existe a possibilidade de eu virar uma estrela?
- vejamos... A sua ficha diz que você vai para o céu, esse já é o primeiro passo. Mas eu só cuido da morte, afinal, eu sou a Morte.
- e a quem cabe?
- não sei. Realmente não faço a mínima idéia. Não sou desse ramo. Mas porque você quer virar uma estrela?
- elas me fascinam, me inspiram, me iluminam e me fazem companhia. Eu quero poder fazer tudo isso para alguém.
- ora vejam, uma causa nobre. É tão difícil ver esse tipo de coisa hoje em dia. Pelo jeito desistiu da idéia de que iria conseguir achar uma maneira de escapar de mim.
- eu tentei, não é? Eu não consigo pensar em mais nada e ainda por cima estou cansado. Pelo jeito não vou encontrar uma forma de escapar tão cedo.
- não mesmo.
- mas o que exatamente você é?
- é meio complicado. Eu sei que já fui humano, mas não lembro de nada da minha vida nem de como eu morri, tudo que eu lembro é que me disseram que eu tinha sido uma pessoa muito má, mas que iriam me dar a chance de escolher entre virar o que sou ou me mandar para o andar de baixo até que decidissem que fosse suficiente.
- e você é o único?
- não. Eu morreria com tanto trabalho. Têm muitos outros cumprindo a mesma pena que eu. Eu já vi alguns por aí.
- e há quanto tempo você faz isso?
- não sei. Na verdade, quando se faz isso, não existe um tempo certo, pode ser um dia ou um milênio, eu não sei. A propósito, está na sua hora. Você está pronto?
- para que?
- para morrer.
- não!
- ótimo! Vamos então! Este é o seu cartão de acesso. Daqui a pouco vai aparecer uma escada e você vai subir, querendo ou não. Agora preciso ver outra pessoa. Foi um prazer conhecê-lo.
- mas... Eu não... – mas a morte já havia sumido e o homem ficou parado ainda algum tempo até um brilho opaco aparecer atrás dele. Ele se virou e se sentiu puxado em direção daquela escada disforme e sem fim, então seu cartão também começou a brilhar e todo aquele brilho ofuscou sua visão. Quando voltou a enxergar estava na frente de um grande portão com um guarda sentado num canto observando-o com uma chave na mão.
- com licença, senhor. Você poderia me informar como eu faço para virar uma estrela.
By: Daniel
sexta-feira, 26 de novembro de 2010
Conversas com a Morte
sábado, 20 de novembro de 2010
Whispers in the dark.
Olhos fechados e uma cama vazia. Um quarto escuro e bagunçado, paredes brancas e sujas. NAda pra sonhar. Nada que possa chamar de seu. E então você abre os olhos e não vê nada ao redor. A escuridão toma todo o seu corpo e você já não quer mais estar ali, sozinho. Cansado de não sentir nada por ninguém, nem mesmo por si próprio. Perseguido por uma culpa angustiante sobre algo que não fez. As horas vão passando e tudo continua exatamente igual. Você não está onde queria estar, com quem gostaria de estar.
O tempo parece já não ser um bom remédio para arrancar de dentro de você toda a dor que sente sem explicação. Só pensa que nada pode levar isso embora. Nem um sorriso vazio, nem uma palavra dita em vão. Nada mais permanece, nem mesmo as ilusões. Nada é suficiente para acalmá-lo. Nem em bebidas e cigarros encontra prazer. O dia amanhece e você continua ali, sem saber o que pensar. Sentindo falta de coisas que não aconteceram, esperando por coisas que não virão jamais.
Tudo se confunde e te leva a pensar que talvez você consiga viver sem sonho algum. Mas sem sonhos o que será de você? Quando tudo o que foi bonito se perdeu em dias sombrios, a única coisa que você deseja é fechar os olhos, escutar o barulho da chuva e pedir para que as cores voltem a surgir na sua cabeça, e que novos sonhos venham junto com elas.
O tempo parece já não ser um bom remédio para arrancar de dentro de você toda a dor que sente sem explicação. Só pensa que nada pode levar isso embora. Nem um sorriso vazio, nem uma palavra dita em vão. Nada mais permanece, nem mesmo as ilusões. Nada é suficiente para acalmá-lo. Nem em bebidas e cigarros encontra prazer. O dia amanhece e você continua ali, sem saber o que pensar. Sentindo falta de coisas que não aconteceram, esperando por coisas que não virão jamais.
Tudo se confunde e te leva a pensar que talvez você consiga viver sem sonho algum. Mas sem sonhos o que será de você? Quando tudo o que foi bonito se perdeu em dias sombrios, a única coisa que você deseja é fechar os olhos, escutar o barulho da chuva e pedir para que as cores voltem a surgir na sua cabeça, e que novos sonhos venham junto com elas.
Over and over again
Perdida em meio a suspiros dilacerantes, olhei para os lados e vi que se aproximava. Seu cabelo cresceu desde a última vez que o vi. E pela primeira vez, consegui não olhar em seus olhos. Eles teriam me engolido em um único segundo, e eu me perderia novamente em suas feições.
O corpo congelado, os movimentos limitados. A velha vontade de me aninhar em seu peito... E sentado ao meu lado, trocava algumas palavras sem sentido. Eu respondia sem me movimentar. Um minuto de silêncio até ele virar as costas e ir embora, novamente. Sem motivo algum se aproximou, e sem motivo algum foi embora.
Consegui sorrir ao vê-lo se afastar. E seus movimentos vindo em minha direção não saem da minha cabeça. Não me senti feliz, nem triste. Mas senti aquele vazio que não tarda em me consumir quando o vejo partir. Inexplicável obsessão, inevitável vontade de tê-lo novamente.
O corpo congelado, os movimentos limitados. A velha vontade de me aninhar em seu peito... E sentado ao meu lado, trocava algumas palavras sem sentido. Eu respondia sem me movimentar. Um minuto de silêncio até ele virar as costas e ir embora, novamente. Sem motivo algum se aproximou, e sem motivo algum foi embora.
Consegui sorrir ao vê-lo se afastar. E seus movimentos vindo em minha direção não saem da minha cabeça. Não me senti feliz, nem triste. Mas senti aquele vazio que não tarda em me consumir quando o vejo partir. Inexplicável obsessão, inevitável vontade de tê-lo novamente.
"Tudo ao redor me faz lembrar que eu o tive, que um dia ele foi meu. Mas eu o perdi, para sempre"
(O Morro dos Ventos Uivantes)
(O Morro dos Ventos Uivantes)
domingo, 31 de outubro de 2010
Lovely lonely night.
Céu escuro e vazio. Imensidão distante. Entrelaçando olhares, capturando imagens escuras, o mundo gira. E gira tão devagar que não percebo nem mesmo que a vida vai passando... Olhares vazios me cercam. Não consigo então parar de desejar com egoísmo tudo o que não me é ofertado. E este mesmo céu que segue escuro sobre mim vai tirando aos poucos a vontade de viver. Antes eu contava 380 estrelas, agora encontro apenas duas.
Me pergunto aonde foram parar as outras. Aonde eu fui parar... Perdida em multidões, deixando tudo de lado só para não precisar perder tempo pensando. Ignorando sentimentos e palavras vazias, presa dentro de mim mesma sem chance de escape.
Me pergunto aonde foram parar as outras. Aonde eu fui parar... Perdida em multidões, deixando tudo de lado só para não precisar perder tempo pensando. Ignorando sentimentos e palavras vazias, presa dentro de mim mesma sem chance de escape.
quinta-feira, 28 de outubro de 2010
O abraço.
Olha para mim com aquela cara de bobo e diz que sou malvada. Enquanto isso eu desejo poder tocar no seu cabelo e acariciar incansavelmente. Vai se aproximando pouco à pouco fazendo com que eu sinta seu cheiro. Meus sentidos começam a falhar, e as bobagens saem de minha boca incontrolavelmente. Olho discretamente para a roupa que usa e para o cabelo bagunçado. Encantador.
As caras e bocas me fazem sorrir e perder o foco de qualquer coisa que eu tente pensar além de 'Quero ter você pra mim'. Ah eu quero. Chame de capricho ou do que julgar melhor. Difícil descrever as coisas quando elas são reais e surreais ao mesmo tempo. A junção de realidade com meus sonhos sempre acaba em desastre; mas todos já sabem que sou um desastre ao natural.
No momento em que eu sentir os braços ao redor dos meus, acariciando meu ombro e encostando sua cabeça na minha, eu terei certeza de que eu não sonhei tão longe assim.
When you have a dream you must to follow it!
As caras e bocas me fazem sorrir e perder o foco de qualquer coisa que eu tente pensar além de 'Quero ter você pra mim'. Ah eu quero. Chame de capricho ou do que julgar melhor. Difícil descrever as coisas quando elas são reais e surreais ao mesmo tempo. A junção de realidade com meus sonhos sempre acaba em desastre; mas todos já sabem que sou um desastre ao natural.
No momento em que eu sentir os braços ao redor dos meus, acariciando meu ombro e encostando sua cabeça na minha, eu terei certeza de que eu não sonhei tão longe assim.
When you have a dream you must to follow it!
domingo, 24 de outubro de 2010
behind green eyes.
E por alguns segundos enquando ele falava comigo, segurou meus cabelos e acariciou com cuidado. Infelizmente não pude ver a expressão de seu olhar com clareza. As lentes dos óculos de grau que usava atrapalhavam, e o dia estava começando a escurecer. Sorriu discretamente, fazendo com que eu sorrisse também.
As palavras são sempre trocadas rapidamente e o tempo vai se tornando cada dia mais curto para encontrar qualquer assunto que leve à algum lugar, mas as semelhanças aparecem de tal forma que não consigo não pensar em como é lindo.
As palavras são sempre trocadas rapidamente e o tempo vai se tornando cada dia mais curto para encontrar qualquer assunto que leve à algum lugar, mas as semelhanças aparecem de tal forma que não consigo não pensar em como é lindo.
segunda-feira, 11 de outubro de 2010
Smilling... but inside i'm dying
Can't help but think of the times I've had with you...
Pictures and some memories will have to help me through.
Os sorrisos escondem a mágoa que cresce a cada dia dentro de mim. Vão apagando os vestígios do que tantos pensam que já se apagou. Mas não vai embora o sentimento que fiz crescer ao longo dos dias, não deixa meu corpo e minha mente em paz nem um segundo sequer. Tentei sair em busca de outros corpos, outros olhares. Mas nada nesse mundo se compara ao que senti quando por alguns minutos o que eu mais desejei foi meu. Qualquer outra pessoa tornou-se pequena demais perto do que idealizo. Qualquer outro rosto não é nada além de um rosto se comparado aquele.Pictures and some memories will have to help me through.
Talvez por isso eu tenha me tornado tão vazia. Talvez por isso eu sequer espere alguém. O tempo me ensinou a ser sozinha, a não esperar recíprocidade em caso algum. Toda e qualquer dor que eu sinta se esconde atrás dos meus sorrisos. Eles vão fazendo com que o tempo leve embora de minhas feições toda a dor que insisto em sentir, e ao mesmo tempo, levam tudo de bom que eu possa vir a encontrar. Estou presa no passado. Só quero sentir os mesmos lábios, o mesmo corpo, ouvir os mesmos sussurros incansáveis, esperando pela minha indiferença.
Os sorrisos sempre escondem tudo. Sempre. Me escondem de mim mesma, do que eu deveria ser. Me afastam de qualquer coisa que me traga prazer.
Mas continuarei assim, sorrindo em vão. Esperando que os dias melhorem e que as memórias se apaguem. Os sorrisos escondem tudo de todos. Só não conseguem me esconder de mim mesma, do meu próprio ser.
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