Com que freqüência os teus sentimentos mudam?
Acha que desisto facilmente, mas o fato é que fui vencida pelo cansaço. Aquele belo loiro é que disse algo inteligente: "Não adianta insistir numa coisa que não dá!".
Tu tentas uma vez, duas e até três. Dependendo da intensidade do sentimento até se quebra um pouco mais. Mas chega uma hora que a única coisa que tu podes ver ao redor são lembranças vazias. E quem é que deseja lembranças vazias?
Chame-me de fraca por desistir, mas não te dou o direito de culpar-me por não mais querer tentar. Correndo muito atrás é que perdi o rumo da outra vez. Tenho até medo de pensar nas conseqüências se eu o fizesse novamente. Queria que entendesse que todo o tempo a única coisa que fiz foi amar. E o meu sentimento, este jamais mudou - apesar de eu ter tentado expulsá-lo de mim-. É auto defesa. Ninguém gosta de sofrer. Não se ofenda quando te pergunto com que freqüência teus sentimentos mudam. Sentimentos sempre mudam. Favorecem uns e destroem outros. Mas por ordem natural das coisas, mudam. Eu jamais perguntaria com intenção de ofender, mas infelizmente cada um entende como deseja. Eu quero mesmo é saber o que se passa dentro do alguém que eu tanto desejo. Quero saber se vale a pena eu ainda desejá-lo ou se é melhor me forçar a esquecê-lo. Eu quero respostas.
E agora eu te pergunto, novamente, e, por favor, não pense que quero ferir teus sentimentos com tal pergunta...
Com que freqüência teus sentimentos mudam?
segunda-feira, 10 de janeiro de 2011
Com que freqüência os teus sentimentos mudam?
terça-feira, 4 de janeiro de 2011
Só você não viu.
- Tu tava estranha ontem, disse ele.
- Não tava não. Quem é essa moça?
- Sobre isso que eu queria falar. Tu gosta mesmo de mim?
- Eu gosto, se não gostasse não estaria aqui a esta hora.
- Fala a verdade, não está com outra pessoa?
Certo, agora ela estava realmente confusa.
- Eu não tô com outra pessoa, de onde tirou isso?
- Achei que não quisesse nada sério, disse ele com naturalidade.
- Ok. Então porque a pessoa gosta de beber, de fumar, de fazer loucuras ela simplesmente não sente nada por ninguém? Ela não é capaz de amar de verdade?
- Não é isso, é que não parecia que tu gostava realmente de mim. Eu não sentia isso em ti. Talvez se tivesse demonstrado mais...
- Desde quando gestos falam mais do que palavras? Tem tanta gente que fala, fala e fala e no final era tudo mentira!
- Mas fala sério... se a gente namorasse tu não seria fiel, não é?
- Não acredita em mim? Porque não acredita em mim? Essa mania de achismos me dá uma agonia sem tamanho. Se tinha duvidas porque não perguntou? Porque não disse que gostava de mim também?
Ela tinha ficado realmente nervosa com o fato de estar ouvindo a única pessoa que tinha se dado a chance de amar falar daquela forma.
- Olha... Esquece minha desconfiança. Eu não te perguntei porque não achei necessário. Se eu achasse que tu gostava de mim, com certeza eu teria perguntado. Eu realment não acreditei em ti quando disse q suas palavras eram verdadeiras e tu nã gostava de mentir, disse q me amava... Mas eu não levei a sério.
Ela estava suando frio, seu corpo tremia.
- Ai tu vem me pedir pra admitir que tava com outro, quando é tu quem tá com outra pessoa.
As palavras sairam fugidas de sua boca, mas ela não se arrependeu.
- Se eu soubesse... Não teria feito isso. - Ele gaguejava.
- A gente não pode exigir dos outros o que não faz, não é? Tu disse isso pra mim, mas porque não usou as palavras para ti mesmo? Poxa. Eu falei: NÃO FALA AS COISAS PQE EU VOU ACREDITAR, E SE EU ACREDITAR, FODEU! E tu falou mesmo assim. E eu acreditei, tu pode não ter acreditado quando eu falei, posso parecer uma idiota que sai por ai brincando com amor, mas eu não sou assim. Nem tudo que parece, é.
Parou de falar por um instante, mas as palavras continuavam saindo.
- Mas eu, eu acreditei em ti . Porque eu acredito em quem eu gosto. E se tu não quisesse, tudo bem. eu não iria atrás de outra pessoa por isso. Eu iria continuar vivendo, e se aparecesse alguém, beleza. Mas não de um dia pro outro. A gente não gosta e desgosta das pessoas assim. -
Ela conseguiu finalmente se calar, então ele retrucou.
- Eu sei qu não... Poxa, to me sentido mto inseguro. Tudo que tu falou... Mexeu comigo.
- Pis não desconte isso nos sentimentos dos outros. ninguem tem que pagar pela tua insegurança. não quis que ninguém pagasse pela minha, é injusto. Eu to me sentindo muito idiota, se tu quer saber.
- Eu não te fiz mal por querer, eu nunca te faria mal por querer. Tenso... As vezes a gente machuca quem mais a gente quer cuidar.
Ela olhou para ele e sentou no canto da cama, não conseguia entender de forma alguma como podia se sentir daquele jeito.
- Alguém sempre tem que sair ferrado dessa coisa de gostar, isso é fato! Que saco!
- Não precisa ser assim, disse ele com tranquilidade.
- Imagina se não. Se não for tu, serei eu. E se não eu, a terceira pessoa que está envolvida neste ciclo vicioso.
- Assim parece que o sinônimo de amar é sofrer, como dizem.
- E não é? Porque tu acha que eu não demostro as coisas? Não é por não sentir. É por saber no que dá.
Ela olhava nos olhos dele que pareciam não entender exatamente o que ela queria dizer. As feições do rosto claro, dos olhos escuros... Tudo parecia tão frio agora. Ele parecia frio. A culpa era dela por não ter dito com todas as palavras que amava ele. Aí então ele procurou em outra pessoa o que achava que não encontraria nela. Era uma menina bastante sentimental, apesar de não parecer. Não demonstrava qualquer carinho por medo de não receber de volta. E ela se sentia mesmo culpada por deixar passar alguém tão importante.
- A gente sofre... Mas o que conta são os momentos felizes.
Ele falava com uma naturalidade inacreditável e ela estava ficando nervosa. O tom de sua voz diminuiu significativamente, parecia que ela falava com ela mesma.
- Eles se apagam todos . São engolidos por uma sombra gigantesca do que foi ruim. E aí só sobram os momentos que não aconteceram. Os que a gente queria que tivessem acontecido. Porque esses tão com a gente quando a gente vai dormir. O resto é tomado por mágoa ou sei lá o nome do sentimento que leva tão facilmente o que tinha de bom.
- Eu queria ter tido mais momentos feliz contigo.
- Eu também.
Ela vestiu o casaco, pegou sua bolsa e saiu pela porta. Ele não a seguiu, mas pensou em ligar para saber se ficaria bem, se a veria novamente.
A vida é mesmo uma bagunça de sentimentos. Leva e trás as pessoas todos os dias. Sempre com frieza, sempre sem se importar com a dor. Ela descobriu então a falta que fazem as palavras. E se ela o tiver perdido para sempre? Havia demonstrado seu carinho de uma forma que talvez ele não tivesse entendido. É uma menina simplória. Seus gestos falam por si. Suas palavras quando ditas, saem como uma tempestade que pode ser devastadora. Por isso tem o cuidado de nem sempre demonstrar. Já foi derrubada muitas vezes por sentir.
Mas de certa forma aprendeu que realmente, não se deve deixar o medo de errar impedir que você jogue. As coisas que quer podem estar bem a sua frente, e se alguém não der o primeiro passo, os sentimentos verdadeiros podem ficar escondidos eternamente. Pulsando dentro do coração rancoroso, tirando de você a esperança do que deveria ter sido uma lembrança bonita.
segunda-feira, 3 de janeiro de 2011
Sinto falta de sentir.
sábado, 11 de dezembro de 2010
Desejando esquecer.

And minutes take longer to break
I will be desperately awaiting
But my tongue won't fall apart
And we've been sitting here for hours
All alone and in the dark.
De: Mayday Parade - You Be The Anchor That Keeps My Feet On The Ground, I'll Be The Wings That Keep Your Heart In The Clouds
Nada mais restou. Outro gole de cerveja seguido de mais uma tragada no cigarro. A luz apagada e o céu escuro só me permitem vê-lo queimar. Ele é tão belo. Tão saboroso e tão quente quanto qualquer outra coisa que eu já tenha experimentado. Eu tentei suprir minha necessidade de estar completa com outras coisas. Tentei ser sincera do meu jeito estúpido e dizer o que sentia. Mas desde sempre isso só afastou as pessoas ao redor. Talvez alguns tenham medo de se entregar a outro alguém, a uma aventura qualquer. Se não der certo, valeu tentar.
Bebo outro gole, está tão gelada quanto a minha pele que implora por um calor que os cobertores não trazem. Sorrio para o nada e percebo a pessoa sozinha que me tornei. Lembro tardes que passei em meio a tanta gente e me peguei sentada em um canto pensando em nada. As pessoas ali, eu aqui. De certa forma sempre foi assim, provavelmente sempre será. O que eu trago comigo costuma repelir as pessoas de uma forma que não consigo entender. A aparência insatisfaz os olhos e não permitem que conheçam o que há por trás dela - não que isso seja grande coisa-. Prometi jamais mudar pelos outros e mantenho. Só mudo por mim. Fazer algo pelos outros nunca me levou a lugar algum. Nunca me trouxe bons resultados.
A cerveja já terminou e eu continuo no escuro. Provavelmente continuarei assim até o amanhecer. Me arrependendo de falar demais, de pensar demais e de querer demais. Ao menos saberei que quando eu acordar, terei ao meu lado coisas que me farão esquecer e dormir denovo. Ao menos momentaneamente, eu terei paz.
quinta-feira, 2 de dezembro de 2010
Comer, Rezar e Amar. - Filosofia
Igualdade entre os sexos. O assunto vem sendo tratado ao longo de muitos e muitos anos. O que conseguimos até agora? Igualdade, claro; em partes. Ao mesmo tempo em que as mulheres podem trabalhar em lugares em que só homens trabalhavam, podendo exercer grandes cargos e atingindo maior competência na realização das tarefas, a evolução da igualdade traz consigo um lado desigual. Muitos acham que as mulheres estão de certa forma, se masculinizando, e que deveriam voltar aos seus lugares de origem, limpando a casa e dedicando-se a família e ao marido em tempo integral, para evitar problemas.
Tomemos como exemplo o filme O Sorriso de Monalisa, no qual a atriz Julia Roberts interpreta uma professora de classe média, independente e solteira em uma escola na qual as alunas são “programadas” para sustentar uma vida a dois. Com a certeza de que as mulheres têm a capacidade de viver feliz sem um companheiro, valorizando a essência da inteligência e do bom gosto pela arte, livros e músicas, acrescentando os mesmos nas cabecinhas cheias de idéias prontas que são formadas desde sempre e mostrando ideais e perspectivas de vida diferenciadas para as alunas. Enfrenta o preconceito de toda uma instituição e das próprias estudantes, porém, consegue fazê-las enxergar que a vida não é sempre um grande livro romancista e sim uma junção de altos e baixos, que sucedem as escolhas que são tomadas ao longo de uma vida.
Achei toda a história muito bem articulada. Muitas das mulheres ainda pendem para o antigo regime fechado que lhes é apresentado desde a infância. Vivem para encontrar um grande amor. Ah, se soubessem que a vida é mais uma tragédia de Shakespeare do que um clichê romântico de Stephenie Meyer. O belo príncipe encantado em cima de um vistoso cavalo branco é tão last week, e tão impossível de acontecer quanto à chuva no Norte do Brasil.
A busca pelo amor perfeito tem sido deixada de lado para dar espaço à busca de si própria. Preferindo então estudar, trabalhar e conseguir um cargo elevado do que sair desesperada a procura de um grande e invisível amor. A presença masculina virou então o que sempre foi, um complemento a felicidade, e não o motivo da mesma. Voltando então a Julia Roberts que estrela outro filme do mesmo feitio, baseado no livro Comer, Rezar e Amar, de Elizabeth Gilbert. A revista ÉPOCA, de 27 de setembro de 2010, apresentou uma reportagem muito bem escrita, na qual expõe a história do livro e os objetivos de Elizabeth ao escrevê-lo:
“A escritora chegou à meia idade com um casamento sem filhos desfeito, seguido de uma paixão que não deu certo e apenas uma certeza: não sabia mais quem ela era. Deixou para trás tudo o que tinha (ou não tinha) e partiu para uma jornada pelo mundo: Itália, Índia e Bali(...)
O filme, como o livro, é um épico pós feminista: em busca de equilíbrio espiritual e independência emocional, Elizabeth tira o foco do alvo clichê das mulheres – um grande e seguro amor–, e é aí que o encontra. Não como objetivo principal, mas como parte daquilo que se chama felicidade. (....)”
Aí está, talvez Elizabeth tenha retratado em seu livro o que muitas de nós mulheres gostaríamos de fazer. Sair em busca de felicidade. Porque como citado na revista, o amor é uma conseqüência de uma série de conquistas que fazem parte da vida, e quando colocado em primeira opção, torna-se algo um tanto forçado, uma alegria obrigatória. Não quero dizer que encontrar outro alguém e amá-lo é impossível, mas sim que não deve ser algo idealizado ou colocado em primeiro plano. Pode haver tantas coisas tão ou mais incríveis quanto um relacionamento.
E não é de hoje que muitas mulheres vêm deixando de lado uma “carreira” emocional e dedicando-se mais ao que querem, retirada da revista ÉPOCA, uma lista de filmes antigos e atuais que contam histórias de mulheres que largaram tudo em busca da sua felicidade.
“Heroínas que largaram tudo e foram atrás de si mesmas:
(Mulheres do tempo em que os mocinhos não tinham vez)
Shirley Valentine
1989
Shirley Valentine é uma mulher perfeita e tradicional. Todos os dias arruma a casa, passa roupa e prepara o jantar do marido. Só que Shirley está vivendo um momento difícil e acha que essa existência rotineira está acabando com seus velhos sonhos de juventude. Para tentar recuperá-los, viaja por duas semanas para a Grécia com uma amiga. Longe do marido e dos filhos, talvez encontre o amor e quem sabe a liberdade
Presente de grego
1987
Diane Keaton vive uma executiva ambiciosa e bem-sucedida que ganha de “herança” uma bebê, sua sobrinha que ficou órfã. Diante das dificuldades de trabalho de uma mulher com filhos, larga a empresa e vai viver no interior com a menina. Acaba encontrando sua verdadeira vocação, se apaixonando e conseguindo equilibrar seu trabalho com a vida pessoal
Thelma & Louise
1991
As duas protagonistas, feitas por Susan Sarandon e Geena Davis, saem pela estrada, abandonam seus homens, matam um estuprador e dão carona para Brad Pitt. No fim, preferem morrer a continuar vivendo num mundo patriarca
Sob o sol da Toscana
2004
Frances Mayes (Diane Lane), uma escritora que vive em São Francisco, tem uma vida perfeita até que se divorcia do marido. Decide comprar uma chácara na Toscana para descansar e começar uma nova fase em sua vida. Enquanto reforma a casa, conhece um homem que a faz redescobrir seus sentidos.”
Talvez o dia em que pararem de procurar e de idealizar tanto a figura masculina, as ilusões se terminem e cada mulher vai ter consciência de que o amor não existe apenas em uma vida a dois, e que os sorrisos que vão fazer seu rosto brilhar podem vir de lugares completamente inusitados, e a figura masculina vai se tornar cada vez menos necessária. E eu digo necessária no sentido de necessidade extrema. As mulheres vão continuar amando os homens e chamando-os de cachorros, galinhas, canalhas e toda essa imensa lista de bobagens; e vão continuar a procura deles. O que deveria ser diferente é que essa procura precisa ser algo que acontecesse ao natural, e não uma necessidade de auto- afirmação.
segunda-feira, 29 de novembro de 2010
Worst Nightmare
Sabe aqueles dias em que você tem a certeza de que alguma coisa está terrivelmente errada? Você procura tentar descobrir o que está acontecendo e não consegue. O dia vai passando e essa certeza vai ficando cada vez mais forte. Mas em determinado momento do dia essa sensação desaparece e o dia segue normalmente. Eu tive um dia parecido. A única diferença foi que não era só uma sensação.
Tudo começou quando eu abri os olhos. Comecei a ficar com dor de cabeça, mas pensei que fosse por causa dos pesadelos que eu tenho tido nos últimos tempos. Sentei-me na cama e tonteei um pouco. Fiquei sentado mais um tempo e me levantei para tomar banho para ver se minha cabeça arejava. Depois do banho fui para a cozinha.
Pela hora que era, esperava ver todos tomando café, mas a cozinha estava vazia, a luz desligada e não havia indício de café da manhã ali. Minha mulher também não estava na cama, não a ouvi levantar e a casa estava mergulhada em um silêncio profundo e mortal, o que me deixou bastante apreensivo. Sentei-me numa cadeira e tentei raciocinar o que poderia ter acontecido, olhei para o corredor e vi um vulto passando para o meu quarto. Não podia ser meu filho, era grande demais para ser ele. Cheguei à conclusão que poderia ser duas coisas: minha mulher indo para o quarto ou, na pior das hipóteses, um ladrão.
Fui para a garagem e pequei um dos meus tacos de golfe para o caso de que fosse a segunda opção. Fui muito devagar para o quarto, olhei pela porta semi-aberta e vi minha mulher deitada na cama. Senti um grande alivio em saber que estava tudo bem. Guardei o taco e voltei para o quarto.
Quando entrei novamente no quarto minha mulher estava num sono muito pesado e eu ia acordá-la quando uma coisa me chamou atenção: estava escuro, mas pelo relógio já era para ter amanhecido. Acordei-a e perguntei se o relógio estava certo, ela me olhou com uma cara de sono, olhou para o relógio e disse que estava. Então olhei para o relógio novamente e vi que eram três horas da manhã. Aquilo me deixou muito perplexo, eu podia jurar que vi o relógio marcar outro horário até alguns segundos atrás. Depois perguntei para ela se ela havia saído do quarto, já que quando eu acordei o lado dela da cama estava vazio, mas ela me disse que não acordara nem por um instante. Depois ela ainda me olhou melhor e perguntou por que eu já estava vestido, eu apenas dei um beijo nela, tirei a roupa e deitei na cama. Teve ainda outra coisa que me deixou inquieto naquele momento: por que meu despertador tocou tão cedo? Fiquei pensando na possibilidade de eu estar sonâmbulo. Estranhei um pouco isso, mas logo estava dormindo novamente.
Acordei, olhei para o lado e minha mulher novamente não estava lá. Mas não me surpreendi já que ela sempre acorda mais cedo que eu. Sentei e minha cabeça começou a girar, o que me fez lembrar do que acontecera à noite. Assustei-me com o fato de estar sentado bem no mesmo ponto da cama e na mesma posição. Só por precaução fui um pouco para o lado.
Eu estava me sentindo sujo, precisava de outro banho. Coloquei o roupão e fui para o banheiro. Quando estava tirando a roupa percebi que minhas roupas de baixo eram as mesmas que eu estava usando ontem, como se eu não tivesse tomado banho. Tentei não pensar muito nisso. Entrei debaixo do chuveiro e me senti bem melhor.
Fui para a cozinha, que estava inabitada e novamente sem indícios de café da manhã. Corri para a janela para ver se realmente havia amanhecido. Depois de ter certeza que, desta vez, eu estava na hora certa, sentei numa cadeira e vi um vulto passando pelo corredor. Pensei que ia enlouquecer. Ter um sonho daqueles até que era normal, mas quando começa a acontecer tudo de novo não há vivente que não estranhe.
Corri para o quarto e vi minha mulher arrumando a cama. Tinha várias perguntas para fazer, mas fiquei quieto por um tempo observando ela trabalhar. Depois ela falou que tinha que sair mais cedo, por isso não fez café. Disse para mim me arranjar com a comida.
Depois de mais um tempo parado observando ela, perguntei se havíamos conversado naquela noite. Ela se virou e balançou a cabeça negativamente, pensou por um instante e balançou a cabeça novamente, se levantou, me deu um beijo, pegou nosso filho e saiu.
Resolvi verificar a garagem para ver se meus tacos de golfe estavam no lugar. Entrei na garagem e vi meu saco de tacos do outro lado do carro, onde eu sempre o deixava. Abri-o para verificar e senti falta do meu taco de estimação, bem aquele que supostamente teria pego noite passada. Resolvi então procura-lo no sofá, já que foi lá que eu o larguei.
Na sala eu olhei em todos os cantos, mas não o achei. Pensei que seria mais oportuno procurar depois do trabalho, quando eu tinha mais tempo. Olhei para o relógio e vi que já estava atrasado, então resolvi nem tomar café. Fui para a porta da frente tomar um ar. Chamou minha atenção o fato da rua estar completamente vazia e todo aquele silêncio incomum nos dias de hoje. Mas entrei logo porque precisava sair.
Passei uma água no rosto e fui para a garagem. Quando abri a porta fiquei estático olhando para o lugar onde deveria estar meu carro. Não fazia sentido ele ter sumido assim, afinal eu o vira alguns minutos antes e as chaves estavam em minhas mãos. Tentei ligar para minha mulher, mas ela não atendia, assim como todos os outros números para quem tentei ligar.
Por algum motivo senti que precisava sair. Abri a porta e vi o carro estacionado onde havia um grande vazio até pouco tempo atrás. Apaguei rapidamente a informação da minha mente, apenas entrei no carro e dei a partida.
Fui na direção ao centro da cidade. Normalmente eu chegaria lá em quinze minutos se eu fosse sempre reto, mas vinte minutos depois eu ainda não havia saído do meu bairro. Passado mais algum tempo, já preocupado com o fato de que iria me atrasar demais para o trabalho, tive a impressão de ter passado na frente da minha casa, o que seria impossível, já que não fiz nenhuma curva. Coloquei na minha cabeça que foi só uma impressão e continuei andando, desta vez prestando atenção nas casas ao redor. Nada me pareceu estranho até eu avistar o campo de futebol que fica que fica a duas quadras da minha casa. Sem contar que o campo fica para o lado oposto àquele que eu havia saído. Pensei que ia enlouquecer. Aliás, eu já estava louco.
Andei mais um pouco e parei em casa para ver se minha cabeça parava de rodar. Fiquei na cozinha ainda um bom tempo olhando para o nada, depois me levantei e abri a porta da frente. O carro não estava lá. Fiquei desesperado e quase arranquei meus cabelos. Isso não podia ser possível. O carro tinha alarme e a chave ainda estava comigo. Peguei o celular e tentei lugar para alguém, mas novamente, ninguém atendia. Fui para o banheiro, lavei a cara, caminhei um pouco pela casa e, por fim, fui parar na garagem. Quase cai para trás quando vi o carro alí. Era surreal demais e eu já estava começando a surtar.
Tirei a chave do bolso e ela começou a balançar, percebi então que eu estava tremendo. Entrei no carro esperando que já fosse quase hora do almoço, mas meu relógio indicava que ainda faltava meia hora para começar o trabalho. Minha pálpebra esquerda começou a contrair-se involuntariamente. Não entendia aquilo, mas tinha certeza de uma coisa: alguém lá em cima não gostava nem um pouco de mim.
Desta vez consegui chegar ao centro. Olhei para aqueles prédios e imaginei que iria me perder de novo, mas não foi isso que aconteceu. Na verdade, o que aconteceu foi que a cidade estava vazia. Liguei o rádio e fiquei olhando para os prédios e as calçadas tentando achar algum sinal de vida. Já nem me assustava mais, tanto que comecei a dar risada do nada.
Um pouco antes de chegar ao prédio onde trabalho a rádio que estava ouvindo começou a chiar e desviei a atenção na pista por um instante para mudar de estação. Nenhuma estava funcionando. Ouvi uma buzina, olhei para frente e freei repentinamente. Havia uma fila quilométrica de carros num congestionamento que até dois segundos não existia. Meu coração disparou, estava suando frio e as dobras dos meus dedos estavam passando de vermelho para roxo. Mais um pouco eu acho que teria entortado o volante ao som de uma música que dizia “last chance to lose control” no rádio que acabara de voltar.
Estacionei numa vaga ali mesmo, já que eu estava perto do trabalho e aquela fila parecia que ainda iria demorar a sair do lugar. Saí do carro e fui andando até o trabalho. A primeira coisa que notei quando entrei foram algumas mudanças nada sutis no hall de entrada, parecia mais um palácio presidencial do que um prédio comercial, mas as pessoas pareciam nem notar essas mudanças. Mas o que mais me surpreendeu foi quando abri a porta da minha sala, havia virado um cubículo. Meu queixo caiu no chão. Só tinha uma mesa e uma cadeira. A única coisa que eu me perguntava era onde tinham ido parar as minhas coisas.
Entrei no escritório me arrastando e sentei naquela cadeira dura, estava pasmo. A situação piorou ainda mais quando olhei para o canto daquele cubículo e meu queixo quase furou o piso. Havia três pilhas de quase um metro de relatórios para corrigir. Fiquei admirando aquilo mais um tempo e fui até lá contra minha vontade. Havia uma folha em cima de toda aquela papelada escrita “entregue tudo pronto até o final do dia”. A primeira coisa que me veio à cabeça foi três pilhas de relatório pegando fogo, mas depois pensei melhor e vi três pilhas voando pela janela na minha cabeça, já que o fogo poderia incendiar o prédio inteiro, se bem que não parecia mais uma má idéia fazer isso.
Quando estava me convencendo a colocar minha idéia em prática bateram na porta do escritório. Era a assistente do meu chefe dizendo que ele queria falar comigo e era urgente. Acho que ela até se assustou quando me viu, pudera, eu parecia um demente. Não, eu estava demente. Fiquei ali parado ainda um tempo tentando restabelecer, depois saí e peguei o elevador para subir até a sala dele. Mas o elevador não subiu; mais ou menos na metade do caminho a luz resolveu acabar.
Não sei bem certo o que acontecei depois. Acho que soltei um grito que ecoou no prédio inteiro. Quando a luz resolveu resolve voltar eu não estava mais no elevador, estava sentado num canto de uma sala toda estofada de vermelho com alguns detalhes em dourado e em madeira fina. Cheguei à conclusão que era a sala do chefe por causa de todo aquele luxo, mas ela estava vazia. Ele queria falar comigo, mas não estava lá. Olhei para o relógio e eram quase doze horas, mas eu recém tinha chegado ao meu escritório, não fazia sentido, mas quem se importava?
Atrás de mim entrou a assistente dele e me disse que ele tinha ido almoçar e que não voltaria aquele dia, mas eu não precisava mais voltar, que eu estava demitido. Olhei bem para ela com cara de tonto, olhei para a cadeira do meu chefe – ou ex-chefe -, olhei para a janela aberta, olhei para ela novamente e olhei para a janela. Fui para a janela.
Acho que foi algo meio instintivo o salto, nem pensei muito. Na verdade nem pensei. Pelo certo eu deveria cair em linha reta e vertical até o chão. Eu caí, mas não exatamente até o chão. Um pouco antes de dar de cara na calçada fechei os olhos esperando espatifar meu corpo, só que eu continuei caindo. Abri os olhos os olhos e tudo ao meu redor estava preto. Eu estava no meio do nada, mas continuava caindo. Depois de um tempo minha respiração começou a ficar mais e mais fraca.
Quando não consegui mais respirar fiquei desesperado e, de repente, me vi sentado na minha cama. Meu coração estava acelerado, eu estava suando frio e ofegante. Minha mulher acordou e me olhou assustada.
– Mais um pesadelo, querido?
By: Daniel (again)
domingo, 28 de novembro de 2010
Tell me, tell me...
Diga que também sonhou naquela noite fria, que também quis voltar no tempo e fazer tudo de novo. Sentir os lábios quentes que não se deixavam sufocar pelo calor dos corpos. Me diz então que o que bebemos não influenciou no que quis fazer. O fez porque sempre quis. Diz que lembra tanto quanto eu das conversas repletas de filosofia, das estrelas que contei e de quando eu disse que me importava. Eu ainda me importo.
Lembra... Lembra e diz que quer tudo de novo, tanto quanto eu.
"E quando eu durmo no seu colo... você me fez sentir denovo o que eu já não sentia mais."